Mídia: o pior dos mundos (digressões)

Somos continuamente bombardeados por informações, muito antes do contexto digital. Na verdade, desde sempre.

Nosso mundo é rico em estímulos e, mesmo considerando nossas limitadas capacidades sensoriais, informação é o que não nos falta. Formas, cores, movimentos, sons, aromas, sabores e sensações táteis estão presentes em cada segundo de nossa vida, isso considerando apenas os sentidos que nominamos.

Nosso fantástico cérebro desenvolveu mecanismos interessantes para trabalhar com a sobrecarga de informações no nível consciente. Um de seus principais truques é ignorar pequenas variações e dirigir nossa atenção para a excepcionalidade. É um processo parecido com o que acontece na televisão digital, cujo sinal traz a informação das mudanças de pixel, quadro a quadro. Se o pixel era preto e vai continuar preto, ou com uma variação muito pequena, isso não precisa ser informado.

Esse mecanismo interno é, de certa forma, reproduzido na nossa relação com o mundo exterior. Dirigimos nossa atenção para o que foge do comum e para o que é intenso. Melhor ainda se for capaz de despertar fortes emoções.

De todas as áreas do conhecimento, talvez a que melhor represente esse fenômeno é a História. Classificamos a trajetória da humanidade em fases, a partir de grandes mudanças. Na medicina, dedicamos nossa atenção para as doenças. Na Física, para as mudanças de estado.


Não é de se admirar que o mundo da mídia se aproprie desse conceito com tanta habilidade. Um jornal que reporte o que já sabíamos e que não mudou, não terá leitores. A reprise de um programa recebe menos atenção. A exceção fica para aquilo que é emocionalmente estimulante, que desejamos ver e rever, repetidamente, até que perca a capacidade de provocar alterações significativas em nosso estado de espírito.

O sites de notícias e os telejornais são um caso à parte. Precisam ser muito dinâmicos para capturar a atenção, conquistar e manter a audiência. E é aí que a coisa complica.

A violência ocupa um espaço significativo na mídia informativa. No mundo contemporâneo, casos de violência são fáceis de encontrar. O nível de violência capaz de sensibilizar o consumidor da informação varia em função do ambiente em que vive e de sua história de vida.

Eu estava no Chile quando a imprensa reportou, pela primeira vez, o assalto a uma mulher que estava parada em um semáforo, dentro de seu carro. O acontecimento ocupou todos os noticiários com grande destaque, e a indignação coletiva foi digna de nota. Trabalhava no centro de São Paulo nesta época, e no semáforo da Avenida São Luiz, em frente á Biblioteca Municipal, isso ocorria praticamente todas as vezes em que o semáforo estava vermelho. Não era notícia. No Brasil, a variação das estatísticas sobre esse tipo de crime eram notícia na época, duas ou três vezes por ano. Assassinatos eram notícia.

Hoje, no Brasil, mais de 50 mil pessoas por ano são assassinadas. São 137 pessoas por dia. Não seria possível contar cada uma dessas histórias no noticiário. Os homicídios tipificados como feminicídios são menos comuns, não chegam a 3 por dia e merecem um destaque maior. Os de figuras públicas, como políticos, são raros. Recebem toda a atenção dos noticiários.

Embora o Brasil siga liderando com ampla margem essa macabra estatística no cenário global, a situação já foi pior. De 2017 para cá houve uma redução aproximadamente 20% na quantidade de mortes violentas. E isso foi notícia.

A repetida exposição às cenas de violência nos noticiários gera dois efeitos paradoxais na sociedade. Por um lado, ficamos ‘anestesiados’ e deixamos de nos chocar com as cenas mais comuns de violência. De outro, vivemos com a impressão de que esse é o mundo que nos cerca (e, de fato é, em algumas comunidades, mas não em todo o país).

Violência é apenas um exemplo, embora o mais dramático.

Tomemos outro. As manifestações nas universidades com alunos desfilando nus, em protesto por alguma causa. É algo raro, acontece uma vez ou outra em algumas poucas universidades do Brasil, protagonizado por pequenos grupos de alunos. Por isso mesmo, é notícia. Se acontecesse diariamente nas 2.500 universidades brasileiras, não seria notícia. Mas a impressão que fica para os consumidores da mídia é que é isso que os alunos vão fazer nas universidades.

Um museu expõe uma coleção de arte erótica e a arte é satanizada. Alguns funcionários públicos são acusados de participar de um esquema de corrupção e todos os funcionários públicos são corruptos. Padres, pastores e curandeiros são flagrados em atos deploráveis e o mundo da espiritualidade perde sua credibilidade.

Gradativamente, nossa percepção da realidade se deteriora e o mundo parece um lugar muito pior do que realmente é. Não é à toa que a depressão vem se transformando no mal do século.

Diariamente, bilhões de habitantes do planeta tem um dia tranquilo. Alunos estudam, artistas criam, líderes religiosos acolhem aflitos, funcionários públicos fazem seu trabalho, pessoas trocam carinhos, tudo isso num volume gigantescamente maior do que as exceções. Mas isso não é notícia, justamente porque é comum, ‘normal’.

A realidade cotidiana é enfadonha e não dá audiência. Precisamos do excepcional e do inusitado para nos sentir vivos, mesmo que sejam histórias, de realidade ou ficção.

Uma boa pergunta é porque não damos mais destaque para o que é excepcional e inusitado de forma ‘positiva’, como histórias de amor, de ajuda ao próximo ou de honestidade. Elas também estão por aí.

Tenho a impressão de que as mazelas e tragédias, de alguma forma, nos fazem sentir, momentaneamente, que nossa condição pessoal é melhor, por comparação. Somos menos violentos, menos corruptos e estamos sendo ‘recompensados’ sendo menos vítimas dessas circunstâncias. Belas histórias tem o efeito instantâneo contrário.

No longo prazo, entretanto, acredito que viveríamos melhor sabendo que o mundo não é um lugar tão ruim para se viver.


Flavio Ferrari