Neo-moedas digitais: o lastro do valor agregado pelo serviço

O sistema financeiro sofisticou-se bastante no último século, o dinheiro ganhou novas formas e o mundo digital nos trouxe, nesta última década, as criptomoedas. (por Amelia Caetano e Flavio Ferrari)


Antes da invenção do dinheiro, os humanos trocavam entre si bens e serviços. A mecânica era relativamente simples: eu vou buscar água no rio para você em troca de 3 ovos; dou dois bois e um porco pela sua charrete.

A dificuldade desse sistema era encontrar bens ou serviços de interesse comum para a troca. Para trocar, preciso oferecer algo que interesse ao proprietário dos bens ou ao prestador de serviços que desejo.

Com o tempo, alguns comerciantes mais criativos identificaram produtos de aceitação generalizada, e passaram a priorizar esses produtos em suas transações. Especiarias (e particularmente o Sal), metais preciosos (ouro e prata), conchas e outros produtos, apreciados por sua utilidade ou beleza, ganharam popularidade em algumas regiões do planeta e passaram a ter uma função similar à do dinheiro atual.

O Sal é um exemplo clássico. Seu consumo é importante para a saúde, agradável ao paladar e, durante séculos, foi a forma mais eficiente para conservação de alimentos. Os chineses parecem ter sido os primeiros a encarar a produção do Sal como uma oportunidade de negócio e, já no século XIX a.C. desenvolveram a técnica para sua extração a partir da água salgada do mar. Os Celtas, longe do mar, mineravam o sal-gema desde 1.300 anos a.C..

"Os Romanos, 1.000 anos a.C., popularizaram o bordão ‘sal para todos’ e pagavam seus soldados com sal. Daí vêm as palavras ‘salário’, ‘soldo’ (pagamento em sal) e ‘soldado’ (contratado que recebe soldo)."

Um item cujo valor é reconhecido de forma generalizada tem o poder de se transformar em um facilitador de trocas, ou seja, uma moeda. Troco o meu boi por uma razoável quantidade de sal (por exemplo) e uso esse sal para adquirir outros bens ou serviços. 

Novas técnicas de extração geraram um crescimento expressivo na produção de sal e sua desvalorização como moeda facilitadora de troca. Seriam necessários aproximadamente 700kg de sal para adquirir um boi magro nos dias de hoje, o que tornou o sal-moeda pouco prático.


O padrão ouro


Por volta do século VIII a.C., o ouro e a prata conquistaram seu espaço como itens de aceitação generalizada para facilitação de trocas. A ideia de dividir o metal em pequenas quantidades previamente pesadas e marcadas surgiu, segundo historiadores, na Lídia (hoje parte da Turquia). Lá eram misturadas partes iguais de ouro e prata e a liga metálica resultante (chamada de ‘eléctron’) era dividida em pequenas pepitas achatadas com seu peso gravado na superfície, num formato bastante semelhante ao das moedas de metal utilizadas nos séculos subsequentes.

Essa prática se popularizou e os termos que utilizamos em línguas latinas vêm da Roma antiga, cuja moeda ‘denário’ deu origem à palavra ‘dinheiro’ e o fato de ser cunhada nas proximidades do Templo Juno Moneta parece ter sido a inspiração para a palavra ‘moeda’.

Entretanto, transportar e guardar grandes quantidades de moedas de ouro e prata pode não ser prático e tampouco seguro. Alguns ourives se dispunham a guardar e proteger suas moedas e oferecendo comprovantes (em papel) para futuro resgate, que gradativamente foram aceitos como forma de pagamento. Não demorou muito para que surgissem os bancos, que ofereciam esse serviço especializado (além de outros), e passaram a emitir os papeis equivalentes às moedas guardadas que deram origem ao dinheiro em sua forma atual. Na medida em que o papel-moeda estabilizou-se como o principal facilitador de trocas, os governos locais passaram a assumir a responsabilidade por sua emissão, sempre tendo como garantia a quantidade de metal correspondente aos papeis emitidos. Isso significava que, a qualquer momento, o portador do papel poderia recorrer a um banco e retirar o equivalente em ouro (ou prata) registrado em seu título de propriedade.  Essa maneira de garantir o valor de face (nominal) do papel-moeda é chamada, pelo mercado financeiro, de ‘lastro’.   

Fácil entender o valor de uma moeda nesse sistema: se eu tenho 1 quilo de ouro guardado no cofre e emito 1.000 notas de um Flamel, cada Flamel tem o valor equivalente a um grama de ouro (FL$ 1 = US$ 41 no câmbio de 05/01/2019). Se decidir emitir mais 1.000 Flameis com o mesmo lastro, o valor de cada Flamel cai pela metade. Para emitir mais Flameis sem perda de valor, preciso adquirir mais ouro, seja através da mineração do metal, seja pela troca por outros bens e serviços (comércio).

Essa prática vigorou no ocidente entre 1870 e 1914 (início da primeira guerra mundial) tendo o Reino Unido (UK) como líder – os países poderiam ter seu lastro em ouro ou em libras (moeda inglesa).  A partir daquela data, foi abandonada pelo mercado financeiro internacional e retomada apenas em 1944 (final da segunda guerra mundial), tendo os Estados Unidos, a nova potência econômica, como líder e sua moeda (dólar-ouro) como referência para o lastro.

Em 1971, os Estados Unidos decidiram, unilateralmente, extinguir a conversibilidade do dólar para o equivalente em ouro, e o sistema de lastro em ouro foi abandonado pelo mercado financeiro internacional, dando lugar ao que se chama sistema flutuante. Nesse novo contexto, o valor de compra das moedas é baseado na confiança e na riqueza aparente do emissor, e a volatilidade pode ser determinada também pela especulação financeira. Os governos dos países menos sólidos procuram manter grandes reservas em moedas consideradas ´fortes` (como o dólar e o euro) como indicador de segurança, para garantir o valor de sua própria moeda. O sistema flutuante não é de todo caótico, mas carece da robustez conferida pelo lastro, já que o emissor da moeda deixa de ter limitações concretas para emitir dinheiro.

Neste ponto, vale sumarizar alguns aspectos fundamentais de uma boa moeda: portabilidade, aceitação generalizada, garantia de troca por bens tangíveis de aceitação internacional (lastro) e confiança no emissor.

O sistema financeiro sofisticou-se bastante no último século, e o dinheiro ganhou novas formas de emissão além do papel-moeda, como títulos públicos, ações de empresas, debêntures, precatórios, créditos de carbono neutro e outras ainda mais criativas.


As criptomoedas


E o mundo digital nos trouxe, nesta última década, as criptomoedas. Uma criptomoeda é um meio de troca criado e controlado coletivamente no ambiente digital, que utiliza a criptografia como forma de segurança e, na maioria dos casos, o sistema ‘blockchain’ para validar as transações e controlar a criação de novas unidades da moeda.

 O ‘bitcoin’, criado em 2009, foi a primeira e é a mais famosa das criptomoedas.  Hoje existem mais de 5.000 criptomoedas diferentes, mas o bitcoin ainda responde por algo em torno de 56% do total de transações e outras 20 criptomoedas concentram 35% (ou seja, as demais 5 mil moedas movimentam menos do que 10% desse mercado).

Tomemos a bitcoin como exemplo para entendermos algumas particularidades dessas novas moedas:  

- A emissão, o registro e o controle das transações seguem regras pré-estabelecidas e concordadas entre todos os participantes da rede de utilização. As regras só podem ser alteradas com concordância unânime (ou uma esmagadora maioria, que deixaria os discordantes automaticamente fora da rede).

- As bitcoins são ‘mineradas’ através da dedicação de capacidade de processamento para processar transações, garantir a segurança da rede, e manter todos participantes do sistema sincronizados. Esse trabalho é ‘remunerado’ por um número de bitcoins pré-estabelecido e administrado matematicamente pelo sistema, através de regras conhecidas e concordadas.

- Há um limite máximo para emissão de bitcoins, também pré-combinado (21 milhões de unidades).

- As bitcoins não têm lastro, no sentido clássico da palavra. Seu valor depende da aceitação e da demanda, sendo calculado automaticamente pelo sistema transacional – registros distribuídos e compartilhados (blockchain) que garantem sua confiabilidade. Desta forma, o ‘lastro’ da bitcoin é sua aceitação pelos participantes da rede e a confiança no sistema.

- As transações são irreversíveis e os registros são inalteráveis, automática e permanentemente auditados em tempo real pelos nós da rede (o sistema automático é a ‘autoridade financeira responsável’).

Em tese, nada impede que uma criptomoeda seja associada a lastros físicos, exceto pelo fato de que alguma entidade precisaria zelar pela administração e proteção dos ativos físicos associados às moedas, o que pode subverter a lógica primária da descentralização. De certa forma, uma criptomoeda associada a um lastro físico seria como uma cota de um fundo de investimentos administrado pelo sistema blockchain.

A questão é saber se isso, de fato, seria necessário, já que todas as moedas convencionais do mundo moderno são lastreadas apenas pela confiança no emissor e em sua aceitabilidade. 

No quesito confiabilidade, em tese, o sistema blockchain pode ser considerado tão ou mais confiável do que qualquer outro sistema adotado pelos bancos centrais dos grandes países, com a vantagem de ter sua independência protegida pela validação coletiva, não poder ser afetado por uma ação individual e ter transações irreversíveis.

No que se refere à aceitabilidade, as moedas locais, sob gestão governamental, levam uma vantagem, já que os governos podem obrigar a aceitação em seus territórios. Mas uma criptomoeda, uma vez adotada pela rede, tem aceitação global e não depende de nenhuma autoridade, apenas da própria rede.

Dois elementos diferenciadores das criptomoedas podem ser relevantes para sua avaliação: o propósito de sua criação e as regras que limitam sua emissão.

O propósito pode determinar a evolução da aceitabilidade. Stellar é uma criptomoeda quem tem como objetivo facilitar a transferência de valores globalmente; IOTA tem a internet das coisas (IOT) como seu campo de atuação; Vechain está sendo desenvolvido com foco na logística de comercialização de produtos. 

A bitcoin foi criada com o propósito de ser a primeira criptomoeda, mas sua adoção, num primeiro momento, foi estimulada pelo anonimato das transações na Deep Web e, mais recentemente, pela escalada de sua valorização. 

As regras de emissão são importantes para avaliar os riscos ‘inflacionários’ associados. A bitcoin, por exemplo, já está perto de seu limite de emissão (80% do total permitido para emissão já foi ‘minerado’), o que reduz o risco de perda de valor por excesso de emissão e aumenta o potencial de valorização pelo crescimento da adoção.

A questão de fundo aqui é a motivação para participar de uma rede de criptomoeda, considerando que para transações cotidianas, qualquer moeda local é suficiente e para transações internacionais, o Dólar ou o Euro cumprem bem seu papel. 

Participar de uma rede de criptomoedas não costuma ser uma decisão prática associada à facilitação dos processos de troca do dia a dia. As três principais motivações são, de forma geral, a especulação (ganhar dinheiro com a valorização), o anonimato das transações (não passam por instituições “oficiais”) e o apoio à “causa” dos criadores. 

Entretanto, algumas das novas criptomoedas em gestação pretendem oferecer benefícios adicionais, quase opostos ao “anonimato” da bitcoin, como a gestão de contratos ou o controle de fluxo de informações e documentos relacionados com as transações comerciais. A moeda passa a estar ‘lastreada’ pelo serviço que oferece, e essa é uma grande novidade.

Quando o objetivo é apenas a especulação, com ganhos de curto prazo, observar o comportamento da Deep Web talvez seja, ainda, a melhor forma de fazer dinheiro rápido (a Dash e a Monero vem sendo indicadas como potenciais sucessoras da bitcoin no cibersubmundo).

Mas se estamos pensando no futuro de forma sistêmica e sustentável, as neo-moedas digitais que oferecem serviços adicionais para facilitação das transações, e agregam valor ao processo, terão mais chance de se estabelecer, lastreadas por esses serviços.

Facilitar transações de forma colaborativa vem sendo a receita de sucesso de praticamente todos os negócios bem sucedidos no mundo digital.


Amelia Caetano é Economista pós graduada em Sistemas de Informação e Sócia da Bee Consulting.

Flavio Ferrari é Engenheiro de Produção especializado em Marketing e mentor do hub SocialData, além de autor do livro “Atitude Digital – os caminhos da transformação” (2018).