Quando retornaremos à normalidade?

Muita gente se pergunta quando tudo voltará ao normal.

Vou desdobrar a pergunta em duas outras, antes de oferecer uma resposta: (1) o que é “normal”? e (2) qual é o significado de “voltar ao normal”?

A mente humana consciente gosta da estabilidade e da previsibilidade, e se esforça para manter essa condição, ignorando mudanças sempre que possível. Não é uma invenção minha. É neurociência.

Enquanto somos capazes de fazer isso, enxergar o mundo de forma estável e previsível, a sensação é de normalidade. Isso é o “normal”.

Grandes mudanças, como as que estamos vivendo agora, desconstroem essa percepção e causam grande desconforto.

Voltar ao normal é recuperar a sensação de estabilidade e previsibilidade.

Nesta perspectiva, as coisas voltarão ao normal quando formos capazes de entender, simplificar e estabilizar a realidade, de forma a adquirirmos alguma "certeza" sobre o que está acontecendo hoje e acontecerá nos próximos dias.

Certamente, nosso mundo não será mais como antes.

Aliás, o mundo muda todos os dias. Mas quando a mudança é pequena, nossa mente consciente faz as acomodações necessárias para preservar a estabilidade da realidade e manter a ilusão do controle.

O episódio único, dramático e intenso que enfrentamos hoje, deixará marcas no mundo de amanhã, que será significativamente diferente do de ontem.

Teremos um novo normal.

Esse momento incomum de transição oferece uma oportunidade interessante: questionar a normalidade.

Li em algum lugar que se colocarmos um sapo num recipiente com a água da lagoa onde vive e começarmos a esquentar a água, ele não reagirá ao aumento de temperatura e acabará morrendo cozido. Não pretendo fazer esse experimento biológico para comprovar sua veracidade, mas posso usar a metáfora.

"Somos tolerantes a mudanças gradativas, mesmo quando para pior."

Assim como o sapo da história, esse mecanismo de estabilização da mente consciente nos leva a aceitar pequenas mudanças sucessivas em nosso ambiente, mesmo que sejam ruins, sem reações. É preciso que aconteça uma mudança abrupta para nos darmos conta de que a situação anterior já era ruim.

É isso que nos leva, por exemplo, a conviver com relações abusivas ou situações de injustiça.

Neste momento distópico, passado o choque inicial, muitos de nós “despertamos” para uma percepção mais acurada do nosso cotidiano. Saímos do modo de repetição automática e questionamos nossas ações, relações e propósitos.

Melhor aproveitar essa oportunidade antes de aceitarmos o novo normal e voltarmos a ser sapos.

Fonte: Descolapso