SOCIALISMO DIGITAL – the econogambling

Atualizado: 21 de Mai de 2019

Socialismo é um conceito que não tem uma definição única. Mas a grande maioria das propostas têm um ponto em comum: a construção de uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos. A diversidade surge nas propostas de caminhos para realizar esse projeto, e quase sempre incluem a forte presença do Estado para controlar os meios de produção, o capital e as propriedades, para garantir a isonomia e a igualdade.

Também existem algumas correntes que defendem um socialismo libertário, livre de hierarquias coercitivas (e, por isso mesmo, as vezes chamado de anarquismo). Nesse modelo, não existiria o controle do estado e as decisões sobre as formas de controle seriam tomadas de forma democrática, colegiada.

A ideia central, que proponho abordar aqui, é o contraponto entre o propósito maior do Capitalismo – remunerar o capital – e do Socialismo – a igualdade de oportunidades.

No Capitalismo, valoriza-se o lucro, e ganha quem tem dinheiro.

No Socialismo, valoriza-se o empenho e ganha a coletividade.

O ecossistema das startups digitais, ‘golden baby’ do capitalismo contemporâneo, subverte ambas as lógicas, e demonstra que esse é mais um falso paradoxo.

Investidores oferecem, através de seu capital, oportunidades para que empreendedores empenhados possam competir com grandes corporações já estabelecidas, desenvolvendo seus projetos que, quase sempre, contam com a participação da sociedade (economia colaborativa).

E, pasmem, não estão preocupados com o lucro das iniciativas. Estão caçando Unicórnios (startups que valem mais do que US$ 1 bilhão).

Os Unicórnios digitais não costumam ser lucrativos, mas crescem rápido e faturam muito. São muito empenhados, competitivos e capazes de abalar as estruturas convencionais dos setores em que atuam. Subvertem as hierarquias coercitivas vigentes e obrigam o ecossistema econômico e social a se reformular.


Uber é um bom exemplo. Abriu seu capital (IPO) no início de maio a RS$ 45 por ação, perdeu 7% de seu valor inicial na primeira semana (US$ 42) e vale, hoje, US$ 77 bilhões.

Não é uma empresa lucrativa e alertou seus investidores que talvez nunca venha a ser. Mas somos testemunhas de que sua presença transformou os conceitos de mobilidade urbana e democratizou a atividade do transporte público, criando uma nova opção de trabalho para milhões de pessoas.

Na rodada de investimentos do início de 2016, a empresa estava valorizada em US$ 7 bilhões (com potencial para valer US$ 50 bilhões num IPO), o que significa, grosso modo, um ganho de 10 vezes o capital investido em pouco mais de 2 anos para quem apostou no Uber naquela ocasião.

Um de seus fundadores, e CEO até 2017, Travis Kalanick, ganhou US$ 1,4 bilhão com venda de ações da empresa no início de 2018. Um empreendedor (trabalhador), apostando em sua ideia, apoiado por investidores e participando dos resultados.

Esse coquetel de socialismo digital com aposta financeira, deságua nas bolsas de valores (Wall Street), onde as apostas dos primeiros investidores, que viabilizaram o projeto, são recompensadas. Nesse momento, milhares de pequenos investidores, encantados com a perspectiva de uma valorização ainda maior da empresa, participam de um ‘crowd funding’ institucionalizado, através da compra de ações. Eles formam a base da pirâmide de apostadores, e esperam que a empresa continue crescendo e que melhore seus fundamentos, transformando-se numa operação lucrativa ou, no mínimo, capaz de conquistar novos investidores interessados em pagar um pouco mais pelas ações que acabaram de adquirir.

Esse ‘econogambling’ não é novo. Poderíamos dizer que começou com a fundação da Nasdaq norte-americana na década de 70. Mas, de lá para cá, as apostas deixaram a casa dos milhões e passaram para os bilhões de dólares.

O mecanismo, de alguma forma, representa a socialização do investimento em inovação (particularmente a tecnológica), promovido pelo capital.

Uma das muitas críticas ao modelo é a da tolerância dos investidores com a falta de demonstração de sustentabilidade dos novos negócios. O subsídio a modelos de negócio deficitários acaba comprometendo a saúde de sólidos concorrentes estabelecidos, que dependem do seu próprio lucro para sobreviver e reinvestir, e consideram que a concorrência com empresas com recursos ‘infinitos’ desequilibra o mercado e é, de certa forma, injusta.

Mas se a regra do jogo permite, há que se adaptar para sobreviver e competir.

E a solução vem sendo adotar os mesmos princípios que animam a concorrência nascente, investindo na aquisição de startups que demonstram potencial disruptivo para os negócios estabelecidos e em ecossistemas de inovação.


Flavio Ferrari

Head BR do CIFS