Somos todos Coringas

Atualizado: 20 de Out de 2019

por Flavio Ferrari


Joker (Coringa) é um filme que mobiliza emoções, instiga pensamentos e divide opiniões.

É, sem dúvida, a melhor história do universo DC Comics depois do gibi Cavaleiro das Trevas (não o filme). E, assim como o gibi marcou o final de uma era de heróis politicamente corretos, o filme tem potencial para transformar as caricaturas sociais do cinema.

Surpreende por aproveitar o que o cinema americano tem de melhor (a riqueza de produção) e abrir mão, pelo menos em boa parte, do que tem de pior (os clichês). Está mais próximo do cinema europeu e dos bons filmes brasileiros e argentinos do que do padrão norteamericano.


Não é um filme de herói ou de anti-herói. A história não é polarizada e a condução se assemelha mais à de um documentário romanceado (deve existir um nome técnico para isso, mas não conheço). Conta a trajetória de um homem e os flagrantes de seu entorno social.

Claro que o propósito do filme é ganhar prêmios e muito dinheiro, como cabe à industria do cinema. Mas isso não diminui o valor criativo da obra.

Há quem diga que foi ´ousada´, quem critique a violência, quem a aponte como um case de marketing, quem a acuse de descaracterizar o personagem original e quem, simplesmente, ame ou odeie. É quase impossível não ter uma opinião categórica.

Mas se a história merece um rótulo, é a de futurista, em seu sentido mais amplo. Os autores se afastam da maré tecnológica que invadiu as histórias de personagem e se concentram na humanidade. Espere isso dos filmes da próxima década.

Gothan City é uma cidade fictícia, inspirada em New York. Reza a lenda que o nome foi atribuído pelo escritor de quadrinhos Bill Finger, na década de 1940.

A Gothan retratada em Joker é a referência de um futuro próximo possível para qualquer grande cidade. Uma sociedade polarizada, sistemas públicos falidos, população dividida entre ricos deliberadamente alienados e pobres de quem se espera nada menos do que o conformismo subserviente. Uma greve de lixeiros alimenta a infestação de ratazanas às vésperas da eleição municipal (não é spoiler - o filme começa assim). A tensão entre classes aumenta.

Talvez por isso, alguns dizem que o filme pode estimular a violência urbana. Pode mesmo, principalmente quando for exibido na TV Aberta, dublado, o que o torna mais acessível. Os menos privilegiados irão reconhecer sua situação no filme. Mas, por outro lado, os mais abastados também serão confrontados com sua hipocrisia e possíveis consequências. O problema não é o filme; é a situação que ele retrata, de forma tão transparente e crua quanto possível para um filme financiado pelo ´stablishment´.

A melhor frase do filme: "The worst part about having a mental illness is people expect you to behave as if you don’t." (ok, isso foi um pequeno spoiler).

"Quando você tem uma doença mental, as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse." (Coringa)

Vale a pena observar as pessoas saindo do cinema ao final do filme, introspectivas, possivelmente escutando o riso nervoso de seus próprios Coringas.

Quando chegarem nas ruas, Gothan já não parecerá ficção.


(Se o filme ganhar um merecido Oscar, espero que ninguém suba ao palco para receber)