Contaminados pelo futuro

Quando tudo está bem no presente, não costumamos ter disposição para fazer mudanças. O conforto é um excepcional motivador da procrastinação.

“Em time que está ganhando não se mexe.” - ditado futebolístico.

Uma crise importante, ou mesmo a iminência dela, traz a necessidade de revisão dos negócios.

No momento, a disseminação de um novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que provoca síndrome batizada de COVID – 19 pela OMS, iniciou uma crise mundial que impacta praticamente todos os ecossistemas econômicos e obriga as organizações a agirem com rapidez para a proteção da saúde das pessoas e dos resultados.

Cancelamento de eventos e viagens de executivos, fechamento de estabelecimentos e outras medidas preventivas vêm sendo tomadas, e vários setores já apontam quedas significativas em suas receitas. Empresas estão revisando seus planos para o ano corrente e o próximo, reduzindo investimentos e, em alguns casos, realizando demissões.

As estatísticas já indicam variações significativas no valor das moedas, quedas substanciais nos índices das principais bolsas de valores, redução nas atividades econômicas e nas projeções dos PIBs dos países e redução nos níveis globais de poluição (em decorrência da redução das atividades).

A situação nos obriga a pensar no futuro.

Vamos tomar dois setores que já foram fortemente impactados como exemplo: viagens aéreas e eventos.

Há quem goste de viajar de avião. Possivelmente, também encontremos pessoas que considerem que passar alguns dias internadas em locais apinhados de pessoas seja um passatempo interessante.

Mas, de um modo geral, a viagem de avião e a presença física em eventos são meios para se atingir outros fins. O consumidor está em busca de experiências relevantes, para seu desenvolvimento pessoal e profissional, para networking ou em busca de prazer, entretenimento ou informação, e acredita que viajar de avião e participar de eventos são as melhores soluções para isso.

As restrições preventivas recomendadas (ou impostas) pela preocupação com a Covid-19 obrigarão consumidores e empresas a repensar esse modelo, antecipando o que já havíamos projetado para um futuro próximo.

A tecnologia já permite que praticamente tudo seja feito remotamente. E a escalada das soluções de realidade aumentada indica que as experiências remotas poderão ser cada vez mais imersivas.

Obviamente, a presença física é muito diferente de um contato remoto. A diferença pode ser menor no caso de uma reunião de trabalho, mas é enorme quando se trata de uma viagem de lazer para algum local exótico.

E, talvez o grande empecilho para o desenvolvimento de soluções remotas seja o desejo de mimetizar as soluções presenciais, ao invés de oferecer alternativas tão ou mais interessantes.

Nos últimos anos, com singular tranquilidade, incorporamos as novas tecnologias de comunicação e acesso ao conteúdo em nosso cotidiano. A média global de tempo conectado à internet é de quase 7 horas por dia (quase 10 horas por dia no Brasil). Isso significa que mudamos a forma de fazer muitas coisas e adotamos novas soluções para comprar, conversar, buscar informações e entretenimento, contratar serviços e resolver assuntos bancários, por exemplo.

Os bancos tradicionais investiram pesadamente no acesso digital e, mais recentemente, vários novos bancos 100% digitais surgiram, conquistando uma parcela significativa do mercado. Existem pessoas que gostam de frequentar agências bancárias, mas a maioria das pessoas considerava que essa era a melhor forma de resolver suas obrigações financeiras, antes das novas soluções tecnológicas surgirem, e se acostumaram rapidamente às alternativas oferecidas pela tecnologia. Fenômeno similar vem acontecendo com o comércio em geral.

Companhias aéreas e empresas realizadoras de eventos, assim como outros negócios impactados pelo vírus, serão forçadas a rever seus modelos de negócio e a rever a cadeia de valor onde estão inseridas. O vírus antecipou seu futuro.

Enquanto a maioria das companhias aéreas se esforçam para competir em preços e oferecem serviços cada vez piores, operando, na maioria dos casos, com prejuízo, as que seguem outra rota, destacando-se na cadeia de valor da experiência de viagem, como a Emirates, a Singapore e a Cathay, vêm crescendo e são altamente lucrativas.

O mercado de eventos corporativos, embora siga em crescimento, já teve dias melhores. Num contexto mais pulverizado e com a redução e o redirecionamento das verbas de marketing de grandes empresas, precisou rever a estrutura e a dimensão de boa parte das grandes feiras de negócio, com raras exceções, como é o caso das feiras de tecnologia. Enquanto isso, o EAD (ensino à distância) cresce a taxas de dois dígitos e multiplicam-se as empresas que oferecem soluções alternativas para networking e desenvolvimento profissional.

A situação de exceção causada pelo vírus irá ser controlada, como outras anteriores, mas terá acelerado o processo de transformação de diversos setores.